sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

MEMÓRIAS

Memórias de Borges Netto






Borges e Denise
A vida de Borges Netto está amarrada à vida da musa Denise Jorge. Impossível imaginar um sem a presença do outro. É assim desde o dia em que se conheceram (fevereiro de 1986), na sala de aula da Escola Técnica Dom Pedro II, na Rua Augusta, em São Paulo/SP.

Nesta escola, sob a orientação da professora de artes, realizaram uma exposição de artes plásticas. Borges já publicara seu primeiro livro Muralha de Cristal (1984). 


“ ... tuas pegadas
marcaram profundamente
o chão fértil de minhas carências...”

Ainda sou o lavoureiro que, com a junta de bois, preparo a terra com o arado. Vou revolvendo os torrões e deixando a terra pronta para o plantio.
Agora revolvo meus sentimentos e semeio palavras.


Borges Netto (João Antônio da Silva Neto), quarto filho de uma família de sete irmãos, nasceu em 26.07.1957, em Gravataí/RS, no campo destinado à criação de ovelhas e gado leiteiro, nas imediações do quarteirão formado pelas ruas Pompílio Gomes, David Canabarro e Salvador Canelas Sb. Ali ficava a casa dos empregados, as estrebarias, e as cocheiras de Pompílio Gomes, comerciante com loja na rua Anápio Gomes.
Todo o Bairro Dom Feliciano foi o cenário bucólico da infância do autor, que tinha como maior atração o banho de imersão dos animais para a retirada de parasitas.
Borges aos 6 meses



“ A noite deve ser suave
Como sono de criança...”











Primeira Comunhão. Com o irmão Flávio
(à esquerda), a mãe Nercy e o pai Ary
Em 1960 a família muda para o bairro São Geraldo, onde o pai trabalha no matadouro e leva os filhos para ajudar nas tarefas. O autor assiste às matanças de gado aos três anos de idade e este fato aparece claramente em Um Deserto Logo Ali.
Em 1964 mudam para uma área rural de Canoas, o conhecido bairro Fátima, que aparece como cenário de diversas crônicas, dois contos e no poema Perda, dedicado à irmã falecida em 1966: “Que saudade de ontem/Da menina travessa/A correr por Fátima/Para fugir de uma boa aula...”



Em 1965 inicia os estudos na Escola Estadual Nossa Senhora de Fátima.
Em 1968 retorna a Gravataí sem os familiares. Tinha então onze anos. Matricula-se na Escola Estadual Maria Josefina Becker, onde descobre a biblioteca, mudando definitivamente seus passatempos, seus hábitos e sua visão do mundo.
Em 1970 retorna aos familiares em Canoas e estuda na Escola Polivalente de Vila Progresso.



Em 1976, ao ingressar nas Forças Armadas, abandona definitivamente a agricultura.
Em 1984 muda para Sapucaia do Sul e no mesmo ano embarca para São Paulo, tendo frequentado oficinas de aprimoramento poético e de texto. Retorna em 1989 acompanhado da musa Denise Jorge e do filho Felipe, ambos paulistanos, instalando-se em Gravataí, no Parque dos Búzios, do bairro Santa Cruz.
(Adaptação de um texto encontrado na página 57 de Um Deserto Logo Ali, publicado em setembro de 1997).








“ Me delicio
No aconchegante prazer
Dos teus olhos”

Ação Social promovida pelo Clube Literário no Natal de 2003. Borges Netto de Papai-Noel agachado com Denise Jorge. De pé, o escritor Círio de Melo ao lado de Eder Michel. Na direita, quase fora da imagem, a poetisa Maria Izabel Moreira e o poeta Edílio Soares Fonseca. De pé, na esquerda, a arista plástica Denise Pacheco Lopes.

A poesia é a arte de criar imagens e sugerir emoções através de uma linguagem que combina som, ritmo e significados

A crônica/poema Adolescência, no livro Passeio, retrata a minha realidade à época: “... Nem Deus sabe como sonho/Com a promiscuidade de lá/E encontrar alguém a me seduzir/Em troca do dinheiro que consigo/Com a venda /De meia dúzia de pés de alface/Para as donas de casa/Que buscam na horta/O alimento fresquinho e saudável.”.

No ano 2000 em palestra/sarau aos empregados do Grupo Habitasul, onde atuou por 16 anos como Gestor de Recursos Humanos.




Quem falou que meu pai fazia “coisas adultas” com a minha mãe foi o Sérgio Bolinha de Vidro, que também atendia por Sérgio Quadrado. Meu irmão Flávio estava junto. Tinha 14 anos. Não pude acreditar. Isto está presente na minha obra. Um Deserto Logo Ali é apenas um exemplo.
Via os animais se reproduzindo, afinal morávamos numa chácara, quase uma fazenda, mas não associava à condição humana.
Sempre preferi uma garota de programas a sexo com namorada fixa. Parecia muito perigoso coisas íntimas em momentos tão íntimos.


A crônica/poemas das alfaces (Adolescência) reflete a minha realidade. Na verdade creio que todos refletem. Usei o dinheiro para “conhecer” uma mulher. Foi tudo muito rápido. Tirar a roupa e vesti-la após quinze minutos. Depois que saí à rua, a Voluntários da Pátria, famosa pelos prostíbulos, vomitei na calçada. Tinha por volta de dezessete anos. Tudo muito tardio: “...Num inverno qualquer/Chuvoso/Como os demais invernos de minha vida/Espero pelo ônibus lotado/Que passará/Na direção da cidade grande.//Nem Deus sabe como sonho/Com a promiscuidade de lá/E encontrar alguém a me seduzir/Em troca do dinheiro que consigo/Com a venda/De meia dúzia de pés de alface/Para as donas de casa/Que buscam na horta/O alimento fresquinho e saudável.”
O quartinho da Voluntários da Pátria era úmido e cheirava a mofo. Só uma cama de solteiro. Não havia espaço para nada. Este ambiente se encontra em Colchão mofado e sujo no livro Passeio: “Os quartos ficam no fundo... ...É impossível/Admitir companhia tão deselegante/Num colchão tão mofado e sujo...”.

Depois peguei o ônibus na Farrapos e voltei para casa. No conto Avenida Farrapos (O Jardim Chinês de Pu-Uan) resgato esta cena: “Estava na avenida Farrapos. Corredor natural para as diversões da cidade.”. Penso que sou aquele personagem que roda pela cidade pelos ambientes promíscuos, mas que não se atreve a fazer uso deles.

Literatura é assim. Você se expõe. Não há como escapar. Expõe as entranhas do corpo e da alma.

“Li todo o poema (O Poeta e a Tormenta), e ele é de uma textura formidável. Me senti à beira da praia, e a vi vazia, sem nenhum pescador.”
(Fernando Medina, a despeito do poema que estava na mesa de trabalho de Borges desde 2013, quando passou uma boa temporada em Gaivota/SC, e dois anos depois ainda não havia conseguido concluir. Medina dá a sugestão para o verso 2 e Borges aceita de imediato, dando o trabalho por concluído.)


Nardini ficou muito decepcionado com as três laudas quem me entregou sobre como preparar uma pesca. No livro ficou em duas linhas. Mas literatura é assim. Você não pode se alongar. Não pode aborrecer o leitor, como disse Machado de Assis.

Apreciador da cachaça local, busca o produto diretamente no Alambique dos Müller, no Distrito de Santa Tecla. Prédio do século XIV (10/2014)

Alice é filha do fogo. Sempre que pode me pede uma fogueira. Nesta foto, em Gaivota, em novembro de 2014.


























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